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O Gado só engorda sob o olhar do dono - 05/04/2011

O GADO SÓ ENGORDA SOB O OLHAR DO DONO


 


Nas diversas ocasiões em que analiso valores, crenças e motivações sobre gestão de pessoas na situação trabalho, não é raro ouvir de executivos ocupantes de cargos de liderança o conhecido provérbio de que "o gado só engorda sob o olhar do dono".


Esta máxima popular é utilizada como argumento para defender a tese de que as pessoas, na grande maioria das vezes, precisam ter na liderança alguém que sempre esteja presente, pois caso contrário existe a tendência natural dos liderados de relaxar e deixarem as coisas rolarem soltas. As pessoas não produzem, e nem se comportam de acordo com os padrões estabelecidos e desejados, quando os "chefes" não estão de olhos bem abertos e atentos.


Esse argumento representa uma premissa de valor sobre como as pessoas devem ser lideradas.

Embora discorde radicalmente dessa analogia, aprendi que não temos o direito de julgar ninguém, afinal das contas nós somos as nossas escolhas e agimos com base naquilo que conhecemos e acreditamos.


No entanto, o que tenho observado na realidade das organizações é que dificilmente as pessoas prestam a devida atenção às questões relacionadas a valores pessoais que, freqüentemente, são expressas através de ditos populares, como a do título desse artigo.


Tenho também comprovado que nos diversos processos de treinamento realizados pelas empresas são examinadas e discutidas, exaustivamente, questões que envolvem apenas aspectos de natureza cognitiva, ignorando-se outras análises e debates que moldam e direcionam fortemente nossos comportamentos: são os nossos valores, crenças e convicções, praticados durante toda a nossa trajetória de vida, de forma consciente ou inconsciente.

São os nossos valores que dão conteúdo e substância aos nossos comportamentos, e não apenas os nossos conhecimentos. Conhecimento é fácil de ser adquirido, valores são muito difíceis de serem reformulados ou abandonados.


Será que você já utilizou este, ou outro conceito de natureza semelhante, para racionalizar/justificar suas ações como líder?

Caso positivo, recomendo enfaticamente rever sua atuação para que não se transforme literalmente em um "vigia de escravos, ou de gado".

Tenho a convicção de que por detrás da afirmativa que "o gado só engorda sob o olhar do dono", existam algumas semelhanças entre a forma como os "chefes" se relacionam com seus subordinados e a maneira como o gado é tratado para produzir mais leite e engordar para futuro abate.


Mesmo desconhecendo como é feita a criação e a engorda do gado, de tanto ouvir essa afirmativa comecei a imaginar como deve ser a vida do gado. Em razão disso, permito-me fazer algumas divagações. De antemão, já peço a compreensão e desculpas por parte dos especialistas em criação de gado, mas trata-se apenas de uma suposição, baseada nas raras oportunidades em que vi uma boiada.


Imagino que o gado deve ter uma vida pautada por uma rotina diária absolutamente imutável. Todas as manhãs, depois do dono ordenhar e controlar a produção, todo rebanho é conduzido para a melhor área do pasto, ficando o "dono" atento para que nenhum animal venha a se desgarrar dos demais durante o trajeto. O único movimento autônomo do gado acontece quando chove ou faz muito calor, pois nestas situações busca um abrigo. Fora disto, fica ruminando durante todo o tempo para produzir mais leite na manhã seguinte e aguardando que o "dono" dê a voz de comando para retornarem ao curral. Alguns desses animais não devem nem mais precisar da voz de comando, pois seu instinto lhe indica exatamente qual o momento de regressar do pasto. Tudo isso passa a representar o que denomino de "felicidade bovina".


A tradição popular acredita que quando o dono do rebanho não comanda toda essa operação, o gado não engorda e não produz a quantidade de leite desejada. Que tristeza, o dono não pode tirar férias, nem mesmo usufruir seus ganhos, pois caso contrário tudo acontecerá errado, pois os "empregados" não devem fazer exatamente como ele faz e quer. Sua herança será recebida pelos filhos que deverão continuar fazendo exatamente tudo aquilo que seu pai ensinou.


Acreditar que pessoas possam ser comparadas ao gado representa uma crença com conseqüências bastante significativas e desastrosas na forma como as pessoas devem ser lideradas. Admitir que as pessoas produzem apenas quando têm alguém nas suas costas, dizendo o que e como fazer é transformar a função de liderança em um dono de uma boiada.


Uma das questões mais importantes – senão a mais relevante – e que credencia o título de um verdadeiro líder, está exatamente em fazer com que as coisas aconteçam principalmente quando o líder não está presente.


Este princípio é a bússola da eficácia de uma liderança. Quando as pessoas se comportam, na presença ou na ausência, de uma única forma, representa que o líder conseguiu garantir efetividade nas suas ações.


Estas observações também podem ser válidas nas relações entre pais e filhos. Sugiro a todos os pais que se perguntem, freqüentemente, se os seus filhos têm realmente as mesmas atitudes e comportamentos na sua ausência. A crônica policial tem sido pródiga em relatar casos de pais que ficam desesperados ao tomarem conhecimento de certos comportamentos de seus filhos fora de casa, de conseqüências muitas vezes irreversíveis.


No caso das lideranças organizacionais que professam a premissa da "eterna vigilância" para produzir resultados, não existem boletins de ocorrências policiais que relatam os comportamentos dos liderados nas ausências de seus "chefes", mas sim insatisfações, frustrações e uma enorme perda de potencialidade das pessoas.

Você realmente considera que as pessoas que você lidera se comportam da mesma forma tanto na sua ausência como na sua presença?

Pense e reflita muito sobre essa pergunta, ela pode lhe servir como um referencial precioso na eventual revisão de sua atuação como líder de pessoas e de grupos.


João Alfredo Biscaia

Consultor do Instituto MVC



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